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apresentação

Exposição Virtual – Brincadeira de Menina é uma exibição artística online, documental, com registros fotográficos e audiovisuais reunidos a partir de 2019, pela fotógrafa e feminista Mickaelly Moreira. Esta exposição busca levantar uma reflexão acerca do brincar como uma ação puramente lúdica, excluindo os rótulos que a sociedade reservou no que diz respeito a separação de brinquedos, cores e brincadeiras a partir do gênero. 

Mas afinal, devemos realmente enxergar como natural a reprodução de falas como “meninas brincam de bonecas e meninos de carrinho”?.

A árvore de brinquedos

Mossoró-RN

Texto de Romero Oliveira

Voz de Tony Silva

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Conquista

Mossoró-RN

2020

universo do brincar

Analisando os presentes recebidos na infância, podemos perceber que meninas possuem como principais brinquedos, aqueles que remetem aos cuidados do lar e dos/as filhos/as, enquanto os meninos tomam posse daqueles relacionados ao desenvolvimento físico, raciocínio, velocidade e agressividade. O universo do brincar assumido pelos meninos é muito maior e desprendido do que brincadeiras que futuramente se tornarão tarefas domésticas para as meninas. O espaço externo, as chances de desenvolvimento cognitivo e o acesso a ferramentas que auxiliam na criatividade, fazem parte de um conjunto de possibilidades, historicamente, negado às mulheres. É necessário que nos permitamos a pensar que, embora tenhamos conseguido avançar ao reavaliarmos conceitos, até então, cristalizados do que é ser homem e ser mulher, ainda perdemos em detalhes tão simples quanto as brincadeiras.

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Eu consigo recordar a primeira boneca preta que ganhei da minha mãe. Na verdade, ela era uma das primeiras bonecas que eu ganhava, fruto de muita economia e esforço. Lembro-me que o requisito dela era conciso "quero uma boneca que seja preta, como você" e como aquilo foi importante! Minha mãe nunca leu sobre representatividade, não teve oportunidade de estudar sobre feminismo, maternidade, racismo e tantas outras coisas, mas, como mãe, ela sabia que seria importante me presentear com algo que falasse muito sobre mim. Se as bonecas são "filhas" das meninas, a minha deveria ser preta. No entanto, ganhar uma boneca preta não se resumiu aos benefícios que a representatividade deve causar, já que eu recordo bem que o racismo estrutural recaiu sobre a minha boneca. As amigas da rua, da família, da escola, faziam chacota da boneca pretinha com cabelos crespos que eu carregava nos braços. Por um tempo, me preocupou ter filhos - e como criança, essa já era uma pauta quase certa - e se o meu filho fosse escanteado como aquela boneca que, diferente das outras, não ganhou nome porque todo mundo só chamava de "preta"? Embora o capitalismo tenha tomado para si um mercado que prega a igualdade racial e em, uma mínima parcela, fabrica e vende bonecas "negras", o peso social que recai sobre os brinquedos diz muito sobre as relações e os estereótipos que precisam - urgentemente- ser destruídos.

representatividade importa
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ALGUÉM ME DISSE

“Se não usar laço, vai ficar parecendo um menino.”​

 

—  Um familiar

brinquedos de Júlia

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descobertas

É quase impossível pensar na infância e não lembrar das brincadeiras - por menor que seja o acesso aos recursos financeiros, por maior que tenham sido as obrigações assumidas desde cedo. Se a gente olha para uma criança, o existir dela já é, por si só, uma grande brincadeira. Esses dias, minha filha de dois meses aprendeu a brincar com as mãos, isso representou um salto de desenvolvimento fundamental para o crescimento dela. Não careceu de brinquedos, não precisou de tecnologias, são só duas mãozinhas descobrindo o mundo, brincando e arrancando sorrisos de um ser pequenininho. Brincar é direito constitucional. Não importa o credo, a nacionalidade, a classe social, a cor... toda criança quer e precisa brincar. No entanto, o sistema capitalista patriarcal não deixaria algo tão decisivo para o futuro de um ser humano, passar batido. Tratou de dividir as brincadeiras e rouba de meninos e meninas, a preparação para o mundo adulto. Castra-se, portanto, das meninas o espaço público e dos meninos a independência dentro do espaço doméstico. Limita nos meninos a vivência com o cuidado e a paternidade e nas meninas as possibilidades de desenvolvimento e liberdade. Por isso, é importante nos propormos a pensar, repensar e questionar os modelos prontos de comércio para o público infantil e as prateleiras "tão bem divididas" nas lojas de brinquedos. Ofertemos mais espaços públicos para que as meninas os ocupem desde cedo e tratemos de ensinar aos meninos que os cuidados com a casa e com os filhos também devem ser responsabilidade deles. Retiremos de qualquer criança a vivência com a violência e o acesso imediato aos meios tecnológicos que os limitam na convivência comunitária e no desenvolvimento enquanto sujeitos. O meu convite é para que construamos um mundo melhor para Lisbela, Diadorim, Luanda, Júlia, Luisa e tantas outras meninas que estão chegando cheias de coragem, energia e disposição para a única obrigação enquanto crianças: Brincar do que quiser.

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